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ECILLA BEZERRA



HAICAI

Haicaísta eu não sou,
talvez leitora voraz
você aqui sucintou,
querendo ficar em paz.

Pobres ouvintes que somos
do seu estilo alongado,
preparados sempre estamos
para os contos romanceados.

Mas... como nós o amamos,
ouviremos o que escreve.
A Deus, contudo, rogamos
que o texto seja breve

A ESPERA

Ecilla Bezerra

Josefina começou a namorar Marcantonio no dia da festa de debutantes patrocinada pelo Clube Italiano do bairro onde morava.  Ele era lindo.  Alto, moreno, olhos negros, misteriosos, e o sorriso dos deuses.  Naquela noite, ao chegar em casa, Josefina passou longo tempo mirando-se ao espelho.  Procurou em todos os traços do rosto onde estava a beleza que a privilegiara, entre tantas garotas, e a fizera escolhida por Marcantonio, o rapaz mais cobiçado do baile.

O tempo passou.  Todas as garotas daquela festa se casaram.  Josefina foi convidada.  A princípio as amigas a convidaram para ser madrinha.  Depois, apenas convidada.

O tempo passou.  Josefina encontrou a primeira amiga que se casou, acompanhada do filho mais velho.  Um rapaz magro, alto, espinhudo, de cabelo espetado.  Estava se preparando para o vestibular de medicina.

O tempo passou.  Josefina foi ao médico.  O rapaz magro era, agora, doutor.  Atendeu-a com respeito e carinho.  Até chamou-a de “tia”!

O tempo passou.  Josefina recebeu o convite de casamento da filha de uma das amigas daquela festa.  Foi ao chá de cozinha.  Reencontrou as colegas, algumas com os netos no colo.  “E você, Fininha”?  “E o Marcantonio?”  Josefina ainda estava noiva.  Quase trinta anos de noivado.  Marcantonio não se decidia.

O tempo passou.  Josefina esperava, ainda, que Marcantonio a pedisse em casamento.  Tinha um enxoval completo, cheirando a naftalina.  Os pais  o  recebiam com frieza,  aturavam.  Marcantonio incomodava.  Vinha três vezes por semana, como no começo, terças, quintas e sábados: porém, sem-cerimônia, tomava liberdades...

O tempo passou.  Josefina completara quarenta anos.  Os pés de galinha acentuavam-se nos cantos dos olhos, quando Marcantonio desmanchou o noivado.

Josefina passou um longo tempo diante daquele mesmo espelho, procurando, no rosto cansado, as marcas deixadas pela desilusão.  Porque esperara tanto?  Porque confiara tanto?  Saberia viver sem ele, depois de tanto tempo?  Josefina pediu demissão do emprego e viajou.  Foi para a Itália, visitar parentes.  Tinha dupla cidadania.

O tempo passou.  Josefina voltou.  Era uma senhora, marcada pelo tempo, pela desesperança, de olhos cansados, fios de prata misturando-se ao cabelo preto.  “Precisa tingí-los”, disse a mãe.  Josefina não tinha forças, estava abatida, desanimada.
Havia lido, na Revista Caras, que Marcantonio, casado com um atriz de novelas, passara a lua de mel na Ilha de Caras sob o patrocínio de uma indústria de cosméticos.

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