Time Coletaneas
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EDWALDO CAMARGO RODRIGUES

Alfaiate fino, cliente grosso

            - Posso saber o que o senhor está fazendo, meu amigo?
            - Simples, cavalheiro: estou tirando a medida de sua perna direita. Em seguida, farei o mesmo com a esquerda.
            - Mas não são ambas iguais? Ao que me consta, não sou coxo.
            - Claro que não, cavalheiro. É que meu ofício exige absoluta precisão, a fim de que o resultado seja o de um trabalho satisfatório, o mais próximo possível da perfeição. Explico: em uma pessoa normal, as duas pernas são do mesmo tamanho, claro. Mas, veja bem: apenas aparentemente. Pode acontecer que entre uma e outra ocorra uma ligeira assimetria, minúscula mesmo. Imperceptível ao observador, porém averiguável por uma boa fita métrica.
            - Sei... Entendi, eu acho. Mas é necessário ficar com a mão aí, parada tanto tempo assim, nesse lugarzinho, humm... como posso dizer, sensível?
            - Estou simplesmente verificando o comprimento exato entre a cava inferior do quadril da calça de seu futuro terno e a altura exata em que deverei pespontar a bainha.
            - Sim, tudo bem... Mas eu mesmo posso segurar a fita métrica, não posso? Até para o senhor seria mais... hann, confortável, por assim dizer. Eu pego a ponta daqui de cima e o senhor segura a extremidade lá embaixo, perto do pé. De acordo? Garanto que o resultado sai o mesmo, igualzinho.
            - Com todo o respeito que lhe devo, peço-lhe que não interfira no meu método de trabalho. Faço isto há décadas e nunca fui objeto de queixas ou reclamações. Pelo contrário, estou entre os profissionais mais valorizados e recomendados da especialidade. Minha agenda de customers inclui nomes os mais destacados da melhor sociedade. Pode consultá-la à vontade o senhor mesmo, e como meu novo cliente facilmente constatará. O senador Gouveia, por exemplo, saiu daqui inda há pouquinho, momentos antes de o senhor chegar. Ontem esteve aqui o general Brigagão. Passamos praticamente a tarde toda juntos, uma conversação deliciosa. Muito simpático, além de bem inteligente, encomendou três costumes em legítima casimira inglesa. É um homem conservador, cavalheiro de fino gosto, muito elegante.
            - General, é? Nunca ouvi falar. Mas, com esse nome e esse título, deve ser mesmo um brutamontes. Duvido que ele deixe o senhor tirar as medidas dele colocando essa mãozinha assim, nesse lugarzinho cabuloso. Afinal, vou poder ou não eu mesmo segurar a ponta desse raio de fita?
            - Não, sinto muito, mas não pode. Seu ângulo de visão não é adequado. Com certeza comprometeria a exatidão do corte. O senhor não vai querer que a bainha fique despencada, engolindo a gáspea do sapato, como acontece com quem usa roupa emprestada de tamanho maior. Ou pior ainda: que o cano da meia fique exposto à vista de todos, como é de uso entre tabaréus. Só mais um instante, e finalizamos esta etapa. Peço-lhe que tenha um pouco mais de paciência, por favor.
            - Está bem... Já que insiste, aguento um pouco mais desse dedão intrometido. Mas, veja bem: só mais um instantinho, está sabendo? E tem mais, senhor... como é mesmo seu nome?
            - Camilo, Camilo Bustamante, a seu dispor. O senhor deve ter lido no letreiro enorme, lá na entrada, ao chegar.
            - Não, não reparei, confesso que sou muito distraído. E como eu dizia, tem mais. Minha irmã, a Cacilda é costureira, e das boas. Ela também confecciona roupas masculinas. É uma esplêndida alfaiata... Existe isso?
            - Creio que o mais apropriado seria “modista”. Mas como feminilizar designativos de profissões e ocupações entrou em moda de alguns anos para cá, pode até ser, senhor... senhor...
            - Genésio, Genésio Sarapião da Costa, muito prazer. Alfaiata ou modista, isso dá no mesmo, não importa. Interessa que ela tem uma mão de fada. A clientela está assim, ó, atrás dela. Alguns têm de esperar pela encomenda durante meses, mas não desistem, porque sabem que ficarão contentes com o resultado final. Veja bem, se eu quisesse, ela me atendia na hora. É claro, sou irmão, sabe como é que é. Mas vou lhe dizer uma coisa, posso parecer antiquado, mas nem de longe queria que a mana tivesse de colocar seu dedinho delicado nesse lugar que o senhor está cutucando agora. Seria constrangedor, sei lá. Aí, é lógico, vim procurar o senhor, seu Brutamontes.
            - É Bustamante. Milo, se preferir, como me tratam os amigos.
            - Pois é, e vim procurar justamente o senhor, porque os colegas lá do escritório recomendaram muito o seu trabalho. Disseram que, se quisesse coisa fina, era com o senhor mesmo, seu Milo. Até me preveniram que seus preços são bem salgadinhos, mas que vale a pena o sacrifício. E cá entre nós, o pai da noiva provavelmente vai ser o futuro sogro da minha filha mais velha, a Filomena, se Deus ajudar, claro. Por isso, convém gastar um pouco a mais e fazer bonito, impressionar bem a cambada, lá no casório, não concorda? O Peteleco, então, que tem uma grana preta, elogiou muito. Ficou se gabando, disse que seu terno fez um sucesso danado na festa de formatura da namorada, que ele guarda para usar só nas melhores ocasiões.
            - Nossa, senhor Genésio! Esse tal de Peteleco só usa a namorada nas melhores ocasiões?
            - Não, seu Milo... Estou falando do terno, é claro! O terno que o senhor costurou para ele e que ele pagou uma fortuna.
            - Não me consta haver algum Peteleco em minha agenda de customers.
            - É apenas um apelido, ora essa. O nome verdadeiro é Pedro de alguma coisa, sei lá. Só sei que diz ser seu cliente e admirador.
            - Ah... Fico agradecido por isso... Pronto! Finalmente terminamos esta parte, senhor Costa. Pode descalçar os sapatos e entregar-me as calças, por favor. O paletó e o colete estão em fase de acabamento. Apenas mais uns dois dias e tudo estará finalizado. Tenho certeza de que ficará bastante satisfeito.
            - Tenho de tirar a calça agora, neste instante?
            - Sim, decerto. Não quero apressá-lo, mas tenho outros clientes a atender.
            - Acho melhor a gente esperar um pouquinho... Uma meia horinha, quem sabe. Ou só se for lá, atrás da cortininha do provador. Eu bem que avisei mais de uma vez. O senhor não vai querer ver o estrago que um dedinho atrevido faz.


                                                                                  Edwaldo Camargo Rodrigues

                                                                                  Peruíbe, 25 de setembro de 2014

 Escola-padrão

- O senhor mandou me chamar?
- Ah, sim! Obrigado por vir, “seu” Anacleto. Por favor, entre e feche a porta, sim? – E, acenando para o visitante, apontou-lhe a cadeira colocada à frente da escrivaninha, sobre cujo tampo recoberto com vidro rachado liam-se num prisma de metal pintado de verde os dizeres “Prof. Sebastião Nery – Diretor”. Convidou então polidamente: – Sente-se, por gentileza.
Em seguida, pigarreou um pouco, remexeu o corpanzil dentro da poltrona de couro, fazendo-o emitir um rangido suspeito. Juntou as mãos, entrecruzou os dedos gorduchos, curvou-se um bocado para frente e prosseguiu com bonomia:
- Não podia deixar passar a ocasião feliz de apresentar-lhe, pessoal e oficialmente, duplas congratulações, meu amigo. Uma por seu aniversário, outra por sua aposentadoria.
- É muita gentileza de sua parte. Entretanto, acredito que deva haver algum engano nessa história: não requeri aposentadoria nenhuma – retrucou o parabenizado, olhos arregalados de perplexidade.
- E isso nem foi preciso, homem. Quantos anos de idade o senhor está completando hoje, professor?
- Set... setenta – articulou o aniversariante, com dificuldade. – Infelizmente! – acrescentou.
- Pois então, meu caro. Conhece a lei tão bem quanto eu. Está lá, no Estatuto do funcionalismo: é compulsória. A partir desta data, não tem mais desculpa: o senhor tem que ficar em casa com-pul-so-ria-men-te – escandiu o Sebastião. E enfatizou essa intimação peremptória, unindo pelas extremidades o polegar e o indicador da mão direita, que formaram assim um anel perfeito e irretorquível. 
Mas o outro não se convencia. Tinha, trancados no armário, calhamaços de provas e trabalhos para corrigir, mais o planejamento bimestral, ainda não terminado, e cuja apresentação aos colegas programara para acontecer durante a próxima reunião pedagógica. Fora o encontro de pais e docentes agendado para a semana seguinte e do qual fazia questão absoluta de participar. Em toda a sua carreira, não faltara uma só vez nessas ocasiões, e não seria agora, ao encerrá-la, que o faria!
- Calma, Anacleto... Não se exalte – aconselhou sensatamente o diretor. – Olhe o coração, cautela... O Almeida, seu substituto, irá cuidar de tudo isso. É um profissional experiente e capaz. Tenho certeza de que ele dará conta do recado sem nenhum problema. Não se preocupe tanto, criatura de Deus. Tomarei todas as providências, a fim de que os estudantes fiquem em boas mãos, que não sejam prejudicados...
- Há um detalhe, que foi esquecido – contrapôs o docente inconformado, apelando ainda para um recurso que lhe ocorreu à cachimônia, bastante estranho, mas que, nesse apuro, considerou estratégico. – Está lá escrito na certidão oficial que eu nasci às 22 horas e 43 minutos. Isso me confere tempo suficiente para reger as aulas de hoje, nos períodos matinal e vespertino, e ainda quase todas do turno da noite!
Reclinando-se bruscamente contra o espaldar da poltrona, o diretor disparou com indisfarçável impaciência:
- Mas isso é ridículo, meu caro. Pouco importa a hora e o minuto em que veio ao mundo. O dia é este, hoje, está entendendo? O senhor não poderia ter assinado o ponto, que, por sinal eu já “carminei”. E, para sua informação, não deve sequer permanecer no prédio além do necessário. Apenas o tempo de arrumar seus pertences e ir-se embora.
E acrescentou: – Se quiser organizar uma reunião de despedida, convidando seus colegas, faça-o, mas fora deste estabelecimento. Pode ser em sua casa, num restaurante, clube, ou o que seja lá que achar conveniente. Ficou claro?
O aposentado, num gesto de submissão, inclinou a cabeça, coçou o couro cabeludo onde apontavam ainda algumas farripas embranquecidas, cortadas rente, e fitou seu superior com olhar súplice e um tanto marejado. 
- Mas... E a Dinha, do 3º C? O que faço no caso dela?
- Qual delas, homem? Seja mais claro, por favor. Que eu me lembre, só aquela classe tem pelo menos umas quinze alunas que atendem por esse nome.
- Está certo, tem razão; mas a de que eu estou falando é aquela moreninha que usa cabelo rastafári, sabe como é? um penteado de trancinhas permanentes espalhadas por roda a cabeça.
- Que bom! Desse modo, ajudou bastante, professor! Agora a conta baixou para apenas doze garotas, talvez, que correspondem a essa descrição. 
- Mas essa é inconfundível, o senhor deve lembrar, ora bolas. É a que dança funk, meu Deus! e que se apresentou na última festa de Halloween.
- O senhor está brincando comigo, só pode ser isso, “seu” Anacleto. Naquela tarde, o pátio estava “chapado” de gente rebolando feito loucos ao som daquela batida pavorosa, Deus que me livre, que inferno aquilo!
- Mas a Dinha fez solo, dançando no palco, é impossível que o senhor tenha esquecido!
- Meu amigo, se há alguma lembrança que faço questão de apagar o mais depressa possível da mente, é qualquer coisa que se refira a festas de escola. De outro modo, eu não teria sobrevivido tantos anos ao cargo de diretor, sem enlouquecer de uma vez por todas. 
- Está bem, entendo perfeitamente. Vamos lá, diretor, a última pista: a moça a que me refiro é a Dinha... – E baixando o tom da voz, cochichou: – A Dinha que está cumprindo regime semiaberto. 
- Ah, sim? Por que não disse logo, homem de Deus? Agora fica bem mais fácil identificar quem é afinal essa figurinha com que tanto se preocupa. – E acrescentou com ironia: – Basta escolher entre uma das três: a Dinha da Silva, a Dinha de Souza ou a Dinha Pereira. Essas três Graças da mitologia estão exatamente nessa condição, se não me engano. Vamos lá – incitou sarcástico –, qual é a sua protegida entre essas flores? Estou curioso para saber.
- Com essa o senhor me pegou – respondeu o outro, indeciso. – Não me lembro do sobrenome. Talvez se desse uma espiadinha no diário de classe...
- Nada disso, Anacleto! Sem subterfúgios. Não ouse pôr um pé em sala de aula! E de qualquer modo, para mim não faz nenhuma diferença quem seja quem. Explique-me apenas qual é o problema dessa sujeitinha, que tanto o aflige afinal.
- É que a menina precisa se preparar para um concurso. Um banco ou cooperativa, acho, algo assim, ela me falou mas não lembro direito. E me pediu que lhe dê um reforço de matéria, especialmente Matemática Financeira, em que ela diz ser muito fraca, e que de fato é, já que as notas que tirou comigo este ano foram baixíssimas.
- Sim, e daí? – fez o Sebastião – Não entendo. Se é assim tão importante para o senhor, dê o reforço que ela pede. Diga a ela que vá à sua casa, homessa! Qual é a dificuldade?
- Não sei não... – vacilou o matemático. – O senhor sabe... aliás, todo o mundo sabe, eu sou viúvo... Sozinho em casa com a moça... O senhor entende. Nem imagino o que essa gente seja capaz de pensar. Sei lá, há tanta maldade neste mundo... Em todo caso, não me parece certo.
- Heureca! – adivinhou o diretor, estalando os dedos, produzindo com estes um ruído semelhante ao de castanholas. E acrescentou, entrecerrando as pálpebras maliciosamente, a cabeça meneante em reprovação folgazã: – Que é isso, professor Anacleto! Que danadinho o senhor está me saindo, hein? Agora já sei quem afinal é a tal da Dinha de quem o senhor tanto fala, e percebo também o motivo de toda essa sua preocupação para com a coitadinha. Dançarina solo, é? Pois não é que é a Dinha Pereira, por quem a molecada vive se derretendo e chama de “popozuda”? Só pode ser, rapaz! Mulheraça, devo reconhecer. Boa escolha! 
- Ah, se eu não conhecesse faz tempo esse seu gênio debochador – considerou o idoso, um tanto desconcertado –, eu juro que me sentiria sinceramente ofendido. Mas nem a título de brincadeira se faz uma insinuação dessas, Sebastião! Basta olhar para minha cara, amigo, para meus cabelos, brancos e escassos, e diga se isso é piada que se faça a meu respeito!
Mas o colega continuou, ainda mais contundente: – No seu lugar, eu tomaria mais cuidado... Olhe que o namorado dela é bravo pra chuchu.
- Namorado? Eu nem sabia que ela tinha namorado. E, aliás, isso não me interessa nem um pouco.
- É o Zecão, e é bem parrudo...
- Bah! – desdenhou o mestre – Usando as suas próprias palavras, deve existir pelo menos uma centena de sujeitos nesta escola que atendem por esse apelido e que também se enquadram nessa descrição. Ademais, o que me importa?
- Ele é do 1º C, o senhor não leciona para essa turma, por isso não o conhece. Mas aviso: o cara é uma fera; está para dar baixa do Tiro de Guerra. Vai sair de lá batendo na própria sombra, isto eu garanto...
Porém, súbito, soou uma batida que parecia urgente. Antes que alguém respondesse, entreabriu-se a porta do gabinete, e no vão assomou um rosto envelhecido, no qual logo se percebia uma expressão de pânico.
- O que foi agora, dona Cacilda? – Era a servente que, na falta de profissional designado, fazia as vezes de inspetora disciplinar e que vinha então interromper a conversação entre os dois.
- Ah, diretor, acode, pelo amor de Deus! – suplicou muito aflita a funcionária. –A rapaziada do 1º C está se pegando a tapas e murros. Depressa, por favor, corre antes que aquela tragédia termine em sangue. 
- Calma mulher, não exagere! – ponderou o homem – Deixe o pessoal se trucidar um pouco entre eles. É bom, assim as cabeças esfriam um pouco. A senhora já devia estar acostumada. Tantos anos de trabalho, ora... – A propósito – lembrou ainda –, tentou ao menos apurar quem provocou a confusão e qual foi o motivo?
- Ói, doutor – e ela coçou a cabeça –, tenho a impressão de que a coisa toda começou de umas semanas para cá e acabou estourando agora. Tem uma cambada todo dia falando bobagem, zoando com o Zecão, sem parar, aquele Zecão da Dinha popozuda, sabe quem é ele, não é mesmo? Pois é, esse povo maldoso anda espalhando que a menina, com o perdão da palavra, anda “dando” pra um professor, que eu não sei não quem é, e tudo pra receber reforço e pra poder passar de ano. Parece que o moço se encheu, não aguentou mais, e saiu na porrada contra os boateiros. E acho que com razão. Essa gente tem cabeça muito cheia de sujeira, não concorda, doutor Sebastião?
- Está bem, dona Cacilda. A senhora, como sempre, está fazendo um bom trabalho. Pode voltar para suas tarefas; e não se preocupe mais que, daqui a pouco, vou lá e acabo com essa confusão toda. 
E, olhando de soslaio para o companheiro, que permanecia calado e cabisbaixo à sua frente, aconselhou.
- Inocente ou não, tenho receio de que o senhor possa ser arrastado para o centro dessa enrascada toda. Vejo aí um bom motivo para o senhor parar de relutar e aceitar de bom grado sua aposentadoria. Vá para casa, homem, e mesmo que se aborreça sem fazer nada, ao menos continuará vivo mais os anos que Deus permitir. O que não é pouco.


Edwaldo Camargo Rodrigues

Peruíbe, 28 de outubro de 2014

HICAI

Sucinto querendo
ser, pus-me logo a escrever
         e fui-me perdendo.




Emergência Médica



            - Doutor Medrado, dona Izildinha está aí novamente. – E acrescentou com um sorriso malévolo: – Diz que é caso de urgência, como sempre.

            - Pelo amor de Deus, dona Zulmira, hoje não! Segunda feira, e logo pela manhã?! Olhe o tamanho da fila lá fora. Essa mulher veio se consultar quatro vezes semana passada, e sem necessidade. Não sofre de doença alguma. Está mais saudável do que eu! Não é possível começar o dia desta maneira. Aliás, lembro que, na sexta-feira, deixei bem claro para a senhora que, com essa criatura, só com hora marcada, e olhe lá.

            - E o que devo fazer então, doutor?

            - Vá e diga que o consultório está cheio, que agende uma data, sei lá, invente alguma coisa; afinal a senhora é a atendente. Seja criativa, mas livre-se dela – determinou o médico, já bastante nervoso.
            Ela deu a volta, obediente, mas como não se decidisse, parada junto à porta entreaberta, mão na maçaneta, quis saber, mal-humorado:
            - E o que é agora, dona Zulmira?
            Ela ajeitou a touca branca na cabeça, fixando-a aos cabelos grisalhos com a ajuda de grampos e tomou coragem. – O senhor veio da cidade grande, doutor, está conosco faz pouco tempo... Se me permite dizer, acho que ainda não compreendeu bem como as coisas funcionam por aqui...
            - E como é que funcionam essas coisas por aqui? – resmoneou ele, com azedume, ajustando os óculos para examinar o primeiro prontuário sobre a pilha que aguardava em sua mesa. E antes que a outra respondesse, arregalou os olhos com surpresa indignada:
            - Como?! Esta ficha médica é da dona Izilda! Com que diabo veio parar aqui, em primeiro lugar, antes das dos demais pacientes? – explodiu. E encarou a outra com viva contrariedade.
            - E-eu tomei a liberdade de colocá-la aí – gaguejou a atendente. – Ela chegou tão cedinho – explicou-se –, antes de todo o mundo, coitadinha.
            - Nós já conversamos bastante sobre isso, dona Zulmira. E a senhora tem a experiência de seu ofício. Repita para mim os critérios de prioridade que vigoram neste consultório.
            - Mas, doutor...
            - Vamos lá, repita – ordenou com aspereza.
            - Bem, vejamos... – começou ela, titubeante. – Têm preferência: acidentados graves, como pessoas que cheguem carregadas e inconscientes, por exemplo; parturientes, crianças, idosos e... por último, pacientes que já tenham sido classificados segundo critérios de gravidade nosológica, acho...
            - Correto. E por que a senhora não aplica essa norma à nossa rotina diária, sem exceção? Seguindo esse critério “sua” Izildinha deveria ser atendida por último, olhe lá, e só se restasse tempo.
            - Porque... conforme eu lhe disse, doutor, esta é uma cidade pequena...
            - E daí?
            - E daí que a dona Izildinha, por exemplo, é filha do vereador Zequinha, o mais votado nas últimas eleições... E o mais grave: é noiva do filho do coronel Tenório, o Dadinho. Este o senhor conhece, é claro, pois é o rapagão que operou... que passou por aquele procedimento cirúrgico, faz poucos dias...
            - Ah, sei! O caso de fimose... Lembro, sim. Aliás, foi meu primeiro nesta cidade – aparteou doutor Medrado. – A intervenção correu muito bem. Mais alguns dias e o moço já poderá casar com sua Izildinha, e quem sabe ela fique bem ocupada com suas peripécias conjugais e nos dê um pouco de sossego – rematou com ironia.
            - Cruzes, doutor Medrado! Não fale assim, por favor – formalizou-se a funcionária. – A moça é Filha de Maria, confessa e comunga todo domingo. Pode perguntar ao padre Libório, se o senhor não me acredita.
            - Que padre Libório, qual nada! E eu é que vou lá perguntar, mulher? Não seja absurda, dona Zulmira! O que tem a ver uma coisa com a outra, afinal? A garota não é nenhuma freira. E a intimidade no casamento não é pecado, mulher.
            - Ah, e eu não sei? Mas do jeito que o senhor coloca as coisas... Vai me desculpar, mas parece depravação de gente que não acredita na santidade do matrimônio, Virgem Santa! – Benzeu-se.
            - Ah, deixe-se de bobagens e faça entrar o primeiro paciente, que já estamos atrasados. – E consultando o prontuário à sua frente, leu mais para si mesmo: – ...senhor Fildelcino Ribeiro, o das erisipelas renitentes... Também não sei mais que faço desse homem. Pode entrar – respondeu ao toque discreto na porta.
            - Com licença, doutor... – E a cara de alguém assomou na fresta.
            - Mas é a senhora, dona Izilda! – exclamou ele visivelmente agastado. – Ainda não é sua vez. Chamei seu Fidelcino. O homem não está aí?
            - Tá sim, meu doutorzinho... Não fique bravo o senhor, não, mas ele é meu padrinho, me viu esperando lá fora e me cedeu o lugar. Fez questão que eu viesse primeiro. Ele é tão bonzinho... – E fechando a porta atrás de si: – Hoje meu assunto é grave, posso garantir. Mas o melhor é que eu acho que o senhor pode resolver tudo rapidinho, não vou tomar muito do seu tempo, pode ter certeza.
            Não havia jeito, tinha que se conformar caso não quisesse estragar o dia inteiro de trabalho que ainda tinha pela frente. Armou-se portanto de paciência. Mas, tão logo pudesse, havia de procurar uma auxiliar mais competente. Velha maldita, a Zulmira! Ardilosa e bisbilhoteira como ela só.
            - Está bem, dona Izilda. Já que a senhora está aqui, sente-se e me conte o que tanto a incomoda, mais esta vez.
            -... Deixe-me ver... É que é um pouco embaraçoso conversar sobre certas coisas... O senhor entende...
            - Não, não entendo não, porque a senhora não me disse nada até agora.
            Ela pareceu sem graça: – Nossa, doutor Medrado, não precisa ser tão insensível, credo! – protestou. E tomando alento: – Pois vamos lá! – Aprumou-se bem na pontinha do assento da cadeira, muito reta, como a preparar-se para iniciar um discurso. – Como todos na cidade já estão sabendo, no domingo da Páscoa, caso com o filho do coronel Tenório, o Dadinho, o senhor conhece meu noivo...
            - Intimamente – brincou o facultativo, fisionomia muito séria.
            Ela esboçou um curto sorriso desconcertado, fez que não compreendeu a malícia, e continuou: – É rapaz muito às direitas, religioso... – Uma pequena pausa, um breve soluço e irrompeu de repente, debulhando-se em lágrimas: – Acho que não o mereço, doutor! O senhor tem de me ajudar nesta situação, pelo amor de Deus!
            - De que forma? – retorquiu ele, assustado com o inesperado da cena. – O que é isso, garota? Qualquer que seja a dificuldade pela qual esteja passando, fale com sua mãe, desabafe com ela, ela saberá aconselhá-la; ou com o padre Libério, quem sabe seja até mais apropriado...
            - Libório – emendou a paciente, enxugando os olhos com a pontinha do lenço rendado. –, o nome dele é Libório...
            - Que seja! Escute, sou apenas um médico, cuido da saúde do corpo. Problemas sentimentais não são da minha alçada, filha – explicou com paciência.
            - Pois é justamente isto: o meu problema é com o corpo.
            - Como assim, senhorita? Explique-me isso, portanto – respondeu ele, demonstrando solidário interesse. – Não se acanhe, por favor. Afinal sou seu médico.
            Ela se curvou sobre a escrivaninha e, após olhar de sorrelfa toda a volta, fez com que ele chegasse o rosto bem próximo ao dela e sussurrou-lhe ao ouvido:
            - Preciso que o senhor me confirme se eu ainda continuo intacta.
            Não atinou bem por que aquilo, por um instante, deixou-o desconcertado. Reagiu, ergueu-se rápido, recompôs o jaleco branco, alisando-lhe as rugas, e dissimulou, ajeitando o nó da gravata em frente ao espelhinho pendurado na parede. Finalmente pigarreou: – A senhorita sabe o que teria sido necessário fazer para que deixasse de estar, digamos assim... “intacta”, não é verdade?
            - Ah, sim, doutor, sei sim – confirmou ela com candura.
            - Esteve com o senhor Dadinho, então... – E refletiu consigo: “Antes da cirurgia, é claro. Caso contrário, a estas alturas, lá foi meu trabalho por água abaixo!”
            - Qual nada, doutor! Que pensamento... – negou, enrubescendo.
            - Outro homem, quem sabe?
            - Não por minha vontade, não senhor...
            Passou-lhe pela cabeça o pior. Ainda novo no ofício, jamais havia lidado com situação semelhante. Como era mesmo o protocolo? O aborrecimento de envolver a família, instruir quanto aos procedimentos legais disponíveis, apoio psicológico, em suma, uma tremenda embrulhada para uma pobre moça em vias de casar-se. Coitada!
            - Pode abrir seu coração, minha filha. – e tomou-lhe uma das mãozinhas, penalizado – Algum desalmado forçou a senhorita, não foi mesmo?
            - Por isso que eu quero que o senhor examine – insistiu. – Não tenho certeza, porque tenho sono muito pesado.
            - Como assim? – tornou ele, confuso.
            - É o seguinte – continuou meio amuadinha. – Ontem, depois do almoço, fui tirar um cochilo no pomar, como sempre faço – explicou. – Acho que ele estava no amanho da horta e eu não notei. Quando acordei, muito mais tarde, ele estava de pé, perto de mim, me observando.
            - Ele quem, criatura?
            - O jardineiro do papai...
            - Mas quem é ele, como se chama?
            - É o Tião Toupeira, trabalha pra nós desde quando vovô era criança. Mas eu não confio nele não, doutor.
            O médico tornou a sentar-se, reclinou-se com todo o peso contra o espaldar da cadeira, consultou o relógio de pulso e fungou profusamente:
            - Não é preciso examiná-la, minha cara – declarou finalmente. – Está tudo bem com a senhorita, aceite minha palavra de profissional. No dia da Páscoa, pode ir de encontro ao seu Dadinho sossegadamente, que aquele toupeira do Tião, com a idade que deve ter, com certeza, já não cava mais buraco no jardim de ninguém. Só tome cuidado para não dormir na noite de núpcias, que aí perde a graça. – E berrou para fora:
            - Dona Zulmira, faça entrar o seu Fidelcino. E rápido, pelo amor de Deus!


                                                                                   Edwaldo Camargo Rodrigues
Peruíbe, 29 de outubro de 2013

2 comentários:

  1. Os textos do Sr. são , cheios de duplo sentido, excelentes, maravilhosos! Parabéns.
    Dárcio

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  2. Prezado Edwaldo:
    Acabo de ler "Emergência Médica". Numa palavra: "excelente".
    Fernando Bueno

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