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HENRIQUE NATIVIDAD

Introdução a Mozart

“No maravilhoso século dezoito, reinava nas cidades-luz europeias, principalmente em Viena, um fedor tal que, hoje em dia, dificilmente seria concebido por nós. Nunca. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e a bosta de rato. As cozinhas fediam a panelas mal lavadas, a couve estragada e a gordura rança de ovelha, ou de porco. Sem ventilação, as salas das casas e dos palácios inteiros fediam a poeira e a mofo. Os quartos fediam a lençóis sebosos, a úmidos colchões de pena, impregnados do odor azedo dos penicos cheios de cocô, esquecidos. Os lençóis, ora piolhentos, ora pulguentos, a escolher. Das chaminés, fedia o próprio enxofre; dos curtumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros fedia o sangue coagulado dos animais mortos e das moscas volteantes. Os homens confundiam-se com os animais, fediam a suor e a roupas mal lavadas; da boca eles fediam a dentes estragados, dos estômagos eles fediam a cebola ou cachaça e, dos corpos, quando já eram velhos, a queijo estragado, a leite azedo e a doenças infecciosas. Entretanto, com muita graça e cor nas pinturas dos gênios, fediam todos os rios, fediam todas as praças, fediam todas as igrejas, o ar todo fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Tudo era mal cheiroso. Fediam igualmente o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal empestado e a rainha como uma cabra velha fedorenta. Tudo fedia a bosta e a merda. Isso, tanto no inverno, como no verão. Toda aquela maravilhosa cultura, aquela imensa atividade humana, fedia.  É nessa cloaca insuportável que surge Mozart. A humanidade, enfim, estava redimida.”

(Adaptado de Patrick Süskind)


porco assado


eu diria olhando daqui
que o mundo deveria ser assim:
bem cozido bem assado como um porco tostado
com um leve toque de manjericão
pra aproveitar melhor o caldinho de gosto limão

e tem mais

se fosse por mim
num certo momento
tiraria ele do forno assim assim em repentes
e botaria um gelo por cima pra crocar a pele
provocando um monte de bolhas indecentes

daí tomaria três cervejas com uma postura gelada
escutaria o jogo
olharia o tempo e
quando o povo gritasse:
e aí, tudo certinho filho da puta?
com muita calma nessa hora o meteria de novo no forno
o tempo certo de tostar toda a nossa paciência

do meu jeito de ver tem coisas que não são fáceis não
haja vista o Afeganistão a farofa do alemão
então
nada como um campeonato de peteca
entre as gêmeas e o primo anão

quando o povo estivesse se lascando
o bicho borbulhando
tapava a boca do forno
pra amorenar um pouco mais
e era justamente nesse momento de tesão
que eu colocaria as batatinhas
os pimentões e os cheiros
com cebolas picadinhas
claro está que
ninguém poderia dizer não

naturalmente

como é prato demorado
a gente ia sempre beliscando umas coisinhas
ou não



poema lipotímico
(homenagem aos poetas complexos)

Qual galiardo embaido pelas noites mortas
ablaqueando atroz sua abacto bochorna voz
o que se abreva diante de tamanha maresia
é o ablegar imogerado sem causar igresia /entanto  
busardos confrades -
nossa abirritante blandícia
mero abilhamento impermeio
configura hausto de um inhenho infuleimado
perdendo-se em ablastêmico lanceio!
em vão!
apenas iliços versos inflictantes -
meros ablatores alatinantes
d´uma vácua pitingada.

Um quê de tardio nos vergava outrora a haplóide
impondo-nos aviltosa ralassaria, todavia
não recuemos ante tamanha ousadia
antes lutemos com bravura e estenia!

Acaso, aberratio ictus, já não locucionava o valoroso vate:
“quão pouco que não apenas ilusão”?
pois que aqueles hão de eviternizar-se
justamente aqueles a quem a humildade/triste sombra/
quedaram desguampados ao relento da noite obstruinte

entanto as estrelas estas
surdas companheiras
faíscam como gorgulho e
diante de tão extrema inópia
reduzem-se todas a entulho

                                                           ============
HOMENAGENS DOS ACADÊMICOS NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER
(8 de março de 2014)


Poema primeiro


mulher


tua estória me fascina
tua presença me perturba
teus desejos são meus
és minha
me possuis
num olhar
teu cheiro
teu suor

umidade doce de calor
me queima
me reduz
me aniquila
à luz do abajur

Poema segundo


mulher de véu

           
era linda a mulher de véu
ainda que não visse rosto
pensava o céu
via-a por inteiro nem mãos
nem pés nem mesmo sons
e ainda assim o céu
movia-se
com a graça permitida
com a fragilidade suave de silentes garças
e fulgia em cores
as cores do céu
a etérea mulher de véu
como um vento tranquilo
um pouco mais que brisa
foi-se como uma fumaça
diluindo-se nos ares
nas cores do céu

Poema terceiro

mulher nua


mulher curvosa
dormindo nua e recata

os lençóis de linho
como nuvens emboladas
entre elas respingada
um céu de coxa da minha amada

é a serenidade muda dos suíços lagos
o respirar de brisas fracas
a tepidez de mornas águas
essa mulher garça
curvosa
nua
e recata


Poema quarto

amor espanhol


o coração
se rasga
a dor
se masca
a esperança
se lasca
a raiva
se tasca
o amor
é casca
a separação
é basca

Poema último

uma mulher


tipo oposta idealizada

isenta de impostos

sólida

palpável

brisante

inegável

nariz

boca

seios

olhos

uma mulher fugaz esvoaçante

e totalmente paralisante

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