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JORGE BRAGA DA SILVA
Publicou contos e poemas em cerca de 60 coletâneas e o livro de poesia “Amanhece um sorriso”. Escreve os blogs:
- JorBS Escritor, de divulgação de autoria.
- AMENDOIM AÉREO, sobre ficção científica e ficção.
- HOMO HUMILIS, sobre a desconstrução da presunção antropocêntrica.
Estuda web design e animação 2D/3D. É tecnólogo em automação industrial e Licenciado em matemática.

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SUMÁRIO

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CADA VEZ MAIS

Quase 40 anos amando uma mulher

O amor
é o extremo
do perigo
que, uma vez,
aconteceu comigo

Começou
quando te vi
senti
o que agora digo
que era amor
o destemor
de querer ficar contigo

De estender meu coração
mendigo
pra você, meu vício antigo

Será que te intrigo
se te disser que ontem
menos te amei que hoje?
Que as palavras não te afrontem)
E menos hoje que amanhã?
E amanhã, menos que no fim?
Posto que, mesmo dentro do jazigo,
nesse amor inda prossigo.
E sobre meus restos sepulcrais,
um epitáfio irá dizer assim:
“E cada vez mais”.
(Para minha querida esposa Elaine)

DISCURSO DE POSSE DO ACADÊMICO JORGE BRAGA DA SILVA

*****

JorBSdisc

Senhora presidente da Academia Itanhaense de Letras, Elizaneth Watanabe, senhor presidente da Academia Peruibense de Letras, senhoras e senhores acadêmicos, senhoras e senhores, boa noite.

Antes de tudo meus parabéns à Academia Peruibense de Letras pelo seu oitavo ano de fundação.

Esta noite, posso dizer sem qualquer dúvida, é uma das mais felizes da minha vida. Amo a literatura, então ser aceito como membro desta Academia, ocupar a cadeira número 15, cujo patrono é Dalmar Americano dos Santos, um grande escritor da nossa Peruíbe, é uma grande honra. Por isto sou muito grato ao Sr. Presidente da APL, Marcos Caramico, à Eccila e aos demais acadêmicos que me receberam com tanta atenção e simpatia.

Quem nunca pensou sobre as reviravoltas da vida, que parece nos levar, à nossa revelia, a algum lugar misterioso e imprevisível?

De certa forma somos todos escritores. Conforta-nos a suposição de que somos os autores absolutos das histórias que são as nossas vidas, que os protagonistas das ações que nos levarão ao desfecho colimado somos nós mesmos.

Todos os dias, escrevemos uma cena desta narrativa. Levantamos para ir trabalhar, levamos nossos filhos à escola. Estudamos, viajamos, vemos nosso time ser o campeão. Nas folhas em branco do livro do destino escrevemos o que queremos ser e ter nos próximos capítulos, os anos futuros de nossa vida que virão; certamente serão repletos de conquistas, sucessos e felicidades.

Esta é a história que cada um de nós escreve no livro maravilhoso da vida. Porém, para nossa surpresa, não raro, parece que o destino é o real autor, que somos, em verdade, meros coadjuvantes, figurantes ou pior, às vezes, temos a desagradável sensação de que somos os odiados vilões. Nosso time é rebaixado, estouramos os 20 pontos da carteira de habilitação, nossos filhos vão mal na escola, perdemos o emprego, alguém muito querido morre, ficamos sozinhos, adoecemos e a violência bate as nossas portas, vetorizada por indivíduos tresloucados e insensíveis às dores alheias.

Num distante passado, há 55 cinco anos, no ano que o Sputnik encantava o mundo com seu singelo bip-bip eletrônico vindo do espaço sideral, vi o mundo pela primeira vez, e então chorei. Nasci em um canto desolado no Pontal do Paranapanema, no limite sudoeste do estado de São Paulo, onde nem o mais intrépido vento ousava ir, fazia a volta antes. 7 anos depois, já em 1964, meus pais mudaram-se para uma pequena cidade às margens do Rio Paraná, na distante divisa com Mato Grosso do Sul.

Entre uma estripulia e outra com a molecada da minha turma, nadando nas águas profundas do majestoso rio Paraná, fiz o ensino básico, o médio e, há 39 anos, em 1973, passei num concurso e fui servir à Força Aérea Brasileira, na qual trabalhei por 30 anos. Ser militar não estava nos meus originais. Naquela época, eu queria apenas ser desenhista de histórias em quadrinhos. Passava muitas horas escrevendo roteiros e desenhando histórias, sonhando que escrevia também a minha própria.

Durante as décadas vividas sob as asas da FAB, como personagem e autor do roteiro que eu escrevia para meu destino cumprir, havia um capítulo no qual eu, como herói desta história, voltaria para o interior quando me aposentasse. E há 9 anos, em 2003, eu me aposentei. Voltei, mas por um brevíssimo período. Não era assim que estava no sonho. Em 2004, já morávamos aqui. Peruíbe não foi um plano, não estava no roteiro, mas foi a grande descoberta, foi amor a primeira vista. E foi este amor quem, desta vez, tomou a caneta das minhas mãos e escreveu minhas mais recentes páginas. E elas são das melhores que já tive.

E hoje, por graça do grande escritor do Universo, que me presenteou com este novo contexto, posso ler este singelo texto, este breve depoimento, e dizer que a vida é uma história que não se escreve sozinho e que possui mais extraordinários desfechos do que pode sonhar nossa imaginosa ficção. Consciente disto, humildemente digo que sou Jorge Braga, filho de Pedro e Susana, casado com Elaine, aqui presente neste momento de alegria, pai de Rodrigo e Camilla e avô coruja de Júlia Braga, de 5 meses de idade.

Porém, somos todos mais do que apenas nomes e números. Queremos e devemos ser os astros e estrelas de nossas histórias, temos o direito a doce fantasia de que delas somos também os únicos autores, mas sabendo muito bem que nem sempre é assim. É isso que nos mantém no leme de nossos pequenos barcos, buscando o rumo neste imenso oceano tempestuoso que é a vida.

Por isto ainda ouso dizer a que vim. Vim para ter amigos nesta terra, porque ela me escolheu ou eu a escolhi entre tantas outras, não importa. Vim para, em Peruíbe, ajudar a escrevermos um final feliz para a história deste povo. Para juntos sermos os heróis e, aos vilões, sejam pessoas ou situações obstáculos, nossas mais sonoras vaias. Unidos neste ideal escreveremos nosso futuro com as tintas do nosso trabalho, com o enredo do amor e com todas as tramas da paixão. Enquanto assim o bom Deus nos permitir.

Muito obrigado.

Peruíbe, 24 de novembro de 2012

HALLOWEEN BRASILEIRO

*****

Bruxa
Hoje é festa, da bruxa e do saci é o dia.
Adivinhe quem primeiro chegou
E entrou saltitando no portal da magia?
Ora, o Saci com seu longo cachimbo.
Nesta hora, o lobisomem foi o segundo
E chegou se achando o cara mais lindo.

O Saci estacionou seu redemoinho novinho
E pra galera fazer balancê,
Ele saltitou e dançou fazendo passinho.
A orquestra tocou a “Dança do Saci Pererê”:
“Pula pula pula / Numa perna só
Quem não cair no chão / É o maior”[1].

E assim foi a recepção do Saci.
A bruxa ainda não estava aqui.
Atrasada, ela não havia chegado,
No trânsito vassoural tudo estava parado,
Foi pane que deu no controle aéreo,
Tinha mago novato no radar do espaço etéreo.

A festa rolava bem animada.
A Cuca rebolava cheia de breja na cuca
E o Boto discreto dava uma espiada.
A Fada, interessada, olhava pro Boto
Que olhava pra Cuca de jeito maroto.

E as vozes misturadas à música
Falam de coisas do mundo encantado
Enquanto bailam sobrenaturais e místicas.
De repente um estrondo tremendo no céu...
Do Caramico o vento levou o chapéu.
Quem fez isso? Gritou todo mundo irado.
Foi a Bruxa que tinha chegado!

Deu-se a correria de quem queria ir ver
A espetacular aparição noturna da Bruxa descer
Rompendo a barreira do som,
A vassoura cuspindo fogo e adrenalina
Em doses de alta emoção.

A multidão fez vários urruhs!
Enquanto o Adoniram cantava “Nóis não semo tatu!”[2].
Entre os clarões e as cores da pirotecnia,
Corujas piavam, um pirilampo ia piscar, mas falhou.
Até um leão perdido não sabia pra onde ia e rugia:
Urruuuuhh!

Mas que festa! Viva o Saci!
Quanta comida! Viva a Bruxa!
Alguém faltou? Sei lá, se faltou não vi!
Saci
Vamos ver: O Papai Noel tá Ali,
Aquele é o Bicho Papão,
Não para de beber água e comer pão.
Lá o Lobo Mau, a Gata Borralheira,
A loira fantasma, O Nego D’água.
Ah, o Corrupto veio,
Mas não deixaram entrar.
O Curupira, o Caipora, A iara,
Até o Negrinho do Pastoreio, cara!
E os de fora: O conde Drácula
E imagine quem... O Frankenstein!

A festa é esta! O maior barato!
Só um fato é que ficou meio chato:
Quando a Mula sem Cabeça não viu
E caiu da sacada, coitada!
E o Gato Preto que passou por debaixo da escada
E sete metros pra lá topou com o tal Chupa Cabra?
E, do nada, ele perde uma vida naquela cilada.

Chega o fim da noite, madrugada...
Teve coisa bem mais radical,
Mas toda festa uma hora se acaba.
Dia do saci e da bruxa é legal.
Os astros giraram no céu,
A bruxa pegou seu chapéu.
O Saci sumiu há pouco daqui.
Então tchau! A gente se vê por aí!
[1] Angélica. A dança do Saci Pererê. http://letras.mus.br/angelica/401609/ ; acesso em 30 out 2013.
[2] Adoniran Barbosa. Samba do Arnesto. http://www.velhosamigos.com.br/horamusica/musica3.html ; acesso em 30 out 2013.
DEMOCRACIA DA CHUVA

*****

Dia desses, quando a chuva choveu,
E até meus ossos ela tudo umedeceu,
No chão, o verme lutava quase que se afogando,
Ele e eu, o frio, e a chuva nos molhando.

Eu pensei: “Isto sim que é democracia!”.
A democracia d’uma chuva que chovia.
O verme e eu, pra chuva que caia, somos seres iguais:
Dois exemplares ensopados do reino dos animais.

O verme túrgido d´água daquela chuva fria,
Já se via fatal vítima de aguda pneumonia.
E eu ali viajando pensando na democracia,
Pro meu amigo verme torcia todo cheio de empatia.

E chovia a chuva com todo seu direito,
Quando a roda de um carro sem respeito,
Esmaga na chuva meu solidário companheiro,
Dá-me banho d’água suja aquele motorista grosseiro

Parece que o banho frio me deu um estalo mental:
A democracia da chuva seria mesmo um fato real?
Mais apto do que o verme, das águas a fúria supero,
Pois refaço de aço e concreto a Natureza como quero.

Nada na Natureza permanece mais que a mudança, a mutação.
O vento vira furacão, a água inundação e o vulcão vira erupção.
Para o forte e para o fraco, tanto faz, o Sol nasce e se põe.
Não é democracia, é a lei natural que a Natureza nos impõe.
A GENTE NÃO QUEREMOS MIORÁ?

*****

PIZZA DE PORCOS

*****

Eu diria olhando daqui
Que o povo deveria ser assim:
Bem educado, bem nutrido e sabichão
Mas não
O que temos, ou melhor, o que somos?
Somos esse bando de cagão

E tem mais

Esse povo que chama de pizza
O que nosso supremo determina
Que chama de pizza
Se os seus senadores e deputados
Despudorados
Concluem que seus pares delinquentes
Estão acima dessas gentes inconvenientes
Esse povo minha gente
Votou naquela corja indecente

Ah, sim esqueci.
Omiti que nossos aldeões genéricos
Coitados, foram alijados,
Foram impedidos e separados
Pelas elites dominantes
De acessarem a educação
Por isso são sempre assim tanto hoje
Quanto antes

O fato é que de fato
O povo nesse mau trato
Continua como sempre sem cachorro neste mato
Por quê?
Pergunta-me você
Por que é vítima do tal círculo perigoso
Que intelectual chama de vicioso:
Sem escola vota mal e disto o que se descola?
Isto: porque vota mal, não tem escola.

E assim o forno desses cornos
Não para de cuspir pizza de porcos
Sim, estes mesmos toscos que alimentam o povo,
Com suas esmolas, suas bolsas disto e daquilo,
E arrogantes arrotam e citam
Quando perquiridos: “fi-lo por que qui-lo”!

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