Time Coletaneas
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RICARDO ERNESTO ROSE

É colunista na mídia impressa, eletrônica e blogueiro. Publicou dois livros sobre temas ambientais e outro com ensaios de filosofia e sociologia. Jornalista com especialização em sociologia e gestão ambiental, também é graduado e pós-graduado em filosofia.
BLOG: DA NATUREZA E DA CULTURA


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SUMÁRIO

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AFORISMOS DE STANISLAW JERZY LEC

Stanislaw Jerzy Lec, poeta e aforista polonês, nasceu em Lviv em 1909 de uma importante família judaica. Estudou letras e direito e desde cedo foi membro do partido comunista polonês. Começou escrevendo poemas e contos para publicações da Polônia e da União Soviética, mantendo intensa militância política. Internado em um campo de concentração pelos nazista na 2ª Guerra, foi condenado à morte por tentar fugir. Escapou matando o guarda com a pá com a qual deveria cavar seu próprio túmulo. Sobre este episódio escreveu o poema Aquele que teve que cavar seu próprio túmulo.

Após a guerra, por suas atividades na resistência polonesa, foi indicado para cargo diplomático em Viena. Descontente com o comunismo polonês, emigrou com a família para Israel, voltando para a Polônia dois anos depois. Atuou como tradutor e escrevia textos de crítica ao regime - fato pelo qual teve seus direitos de publicar cassados até o final dos anos 1950. Imensamente popular, apesar de antiautoritário e anticomunista no final da vida, Lec recebeu grandes honrarias do governo quando de sua morte em 1966.

Stanislaw Lec é considerado um dos melhores aforistas modernos, tendo suas obras traduzidos para quase todas as línguas europeias. Seus aforismos têm geralmente uma conotação crítica. Crítica da política, do conformismo, da imbecilidade (Dummheit) da vida humana, da falta liberdade. No Brasil, país onde o aforismo é pouco valorizado, Lec é praticamente desconhecido e não existem traduções de suas obras. Na internet encontram-se sites contendo alguns aforismos de Lec, traduzidas para o português.

Para fazermos estas traduções utilizamos as obras Letzte unfrisierte Gedanken (1968) (Últimos pensamentos desarranjados); Alle unfrisierte Gedanken (1983) (Todos os pensamentos desarranjados); e Das groβe Buch der unfrisierten Gedanken (1971) (O grande livro dos pensamentos desarranjados).


Stanislaw Jerzy Lec - Aforismos diversos

Sua consciência era limpa, ele nunca a utilizou.

O que é o caos? É a ordem que foi destruída na criação do mundo.

Ah, se pudéssemos ver a vida e não as situações!

É uma pena Caim e Abel não terem sido irmãos siameses.

Aqueles que nadam contra a correnteza, não devem esperar que ela mude de direção.

Ideais não são nada para idealistas.

Para chegar à fonte é preciso nadar contra a correnteza.

Os gordos vivem menos. Mas eles comem por mais tempo.

Lidar com anões faz entortar a coluna.

Quantos rouxinóis uma fera precisa comer, para começar a cantar?

Muitas vezes é preciso dizer não, para poder se afirmar.

Eu sou lindo, eu sou forte, eu sou sábio, sou bom. E descobri tudo isso sozinho!

Panem et circenses! Sempre mais pão branco e jogos mais encarnados.

Quem apela à razão, não a reconhece como primeira instância.

"Levante a cabeça!", dizia o carrasco e lhe jogava a corda em torno do pescoço.

Eu sou um otimista. Acredito na libertadora influência do pessimismo.

Todas as nossa diferentes ficções resultam juntas na realidade.

Na realidade, tudo parece diferente do que realmente é.

Mesmo nas grandes encruzilhadas da história, a polícia tenta organizar o trânsito.

Alguns vivem em uma rotina tão admirável, que é difícil acreditar que vivem pela primeira vez.

Sua falta de talento ele compensa com falta de caráter.

Saiam do caminho da justiça. Ela é cega!

Também os supérfluos são frequentemente requisitados.

A arte era a sua paixão. Ele a perseguia.

Em tempos difíceis não se esconda dentro de você; ali você pode ser achado mais facilmente.

Talvez sejamos apenas a memória de alguém.

O ser humano representa em sua vida apenas um pequeno episódio.

Diferenciamos dois tipos de demônios: anjos decaídos e humanos promovidos.

Mesmo a eternidade tinha, antigamente, uma duração mais longa.

Quem encontra eco, se repete.

Quantos não existem que, para não perderem de vista seu próprio umbigo, estão prontos a curvarem sua coluna.

Ele carregava sua bandeira bem alto - para não precisar vê-la.

A vida é perigosa, quem vive morre.

Vocês sabem onde sempre se pode encontrar a esperança? No guarda-roupa do Inferno, abaixo da inscrição "Lasciate ogni speranza"

Todas as repúblicas as vezes são governadas por reis que estão nús.

Sejamos discretos. Não perguntemos aos mortos se eles viveram.

Os inquisidores conhecem a liberdade - dos depoimentos de seus prisioneiros.

Às vezes o Diabo me tenta a acreditar em Deus.

A contemplação do mundo é grátis. Só pelos comentários precisamos pagar caro.

Não devo me afastar da realidade? Mas ela não está em todo lugar?

SOBRE A CULTURA POPULAR

COMENTÁRIOS DO AUTOR


A cultura popular é aquela que difere daquela praticada ou apreciada pelas classes culturalmente mais ilustradas. Tem sua origem na vida diária do povo; suas crenças e costumes, sua adaptação ao ambiente e às condições econômicas, valorizando seus aspectos históricos. O interesse pela cultura popular sempre existiu implicitamente na dita alta cultura. Muito do que foi produzido pela literatura, música e artes plásticas tem sua inspiração na prática do povo, desde a Idade Média.

A partir das Grandes Navegações, quando os europeus passaram a tomar contato com culturas de regiões não europeias, que estavam fora de seus padrões estéticos, morais e religiosos, estas populações foram classificadas como culturalmente primitivas e tecnologicamente atrasadas. No século XVIII, com o início dos estudos antropológicos e sociológicos, a Europa começou a estudar as culturas não europeias sob um outro olhar, pesquisando principalmente suas religiões, organizações sociais e produção material.

Ao mesmo tempo em que crescia o interesse pelas culturas de outros povos, desenvolvia-se também entre os estudiosos europeus o estudo da cultura popular do próprio país ou região. Escritores, músicos e pintores passam a se voltar com interesse para os temas populares, como fonte de inspiração. Assim, muitas das melodias incorporadas à música dita clássica ou erudita por compositores como Mozart ou Mahler, são de origem popular; eram canções originariamente cantadas e tocadas pelo povo. Histórias infantis hoje ainda contadas, como João e Maria e Chapeuzinho Vermelho, também têm nasceram entre o povo não letrado - neste caso em condições reais do camponês da Idade Média. Foram coletadas e organizadas por filólogos e historiadores, como os alemães irmãos Grimm, que passaram a estudar a cultura popular, o folclore (do alemão Volklehre e do inglês folklore).

A cultura, em certos aspectos, foi muitas vezes utilizada para submeter outros povos. A Igreja Católica, por exemplo, em sua ação evangelizadora ao longo da história, sempre usou a estratégia da aculturação, muitas vezes forçada. Incorporava práticas dos povos subjugados e, desta forma, acabava privando-os de sua identidade cultural, ao fazê-los aderir ao catolicismo. Na Idade Média a Igreja utilizou locais de culto celtas e germânicos (árvores, pedras, etc.) e em seu local construiu igreja e capelas. Incorporou festas pagãs, como a Festa do Fogo e a Festa da Colheita (transformados nos feriados juninos) e o dia das almas (que se tornou o católico feriado de finados). A mesma prática a Igreja teve no Novo Mundo, onde construiu seus templos sobre locais de culto dos povos ameríndios. No Peru, na Bolívia e no México estas práticas foram bastante utilizadas. Os templos dos povos eram parcialmente destruídos e serviam como fundamento do templo católico. A técnica de adaptar mitos indígenas ao catolicismo também foi bastante usada pelo jesuítas no Brasil, para aculturar os índios, de modo a torná-los mais “cooperativos” ao domínio português, pelo menos em uma primeira fase da colonização.

Da mesma forma, a cultura pode servir como instrumento de libertação ou de resistência de um povo, ligando-o às suas tradições passadas, mantendo sua identidade cultural e social. Quanto mais um povo dominado valoriza suas próprias tradições culturais, tanto mais difícil será para um outro dominá-lo culturalmente. Exemplo disso é o caso do povo basco, que mantêm em parte sua língua e tradições culturais há centenas de anos, apesar de estar sob forte influência e domínio de duas culturas extremamente fortes, a francesa e a espanhola. O mesmo acontece no Tibete atual, onde apesar do enorme esforço chinês em destruir a cultura local, o povo tibetano segue mantendo suas tradições.

Por final, cabe ressaltar o caráter intrinsecamente humano da cultura, já que os animais não produzem cultura. Apesar de construírem teias, colmeias, ninhos, tocas e diversas outras formas elaboradas de local de abrigo e procriação, este impulso é transmitido geneticamente. Estudos mostram, no entanto, que o uso de certas ferramentas - espetos, pedras, ato de lavar alimentos - são práticas não herdadas e foram aprendidas copiando atitudes de outros membros da espécie.

Nos humanos, nem tudo é diferente. A discussão sobre quais comportamentos culturais são herdados geneticamente está cada vez mais acirrada. Admitindo que toda a evolução das sociedades humanas nos últimos 50 mil anos é baseada no desenvolvimento da cultura, é cada vez mais aceito que certas capacidades e comportamentos têm origens genéticas. No entanto, a construção de qualquer sociedade humana está baseada na cultura, elaborada e transmitida de uma geração à outra. A própria individualidade humana – segundo a antropologia e a psicologia – desenvolveu-se gradativamente, junto com a cultura.

No final, talvez seja uma composição de ambos: herdamos geneticamente de nossos antepassados, anteriores ao homo sapiens, certas aptidões que se desenvolvem através da interação com o ambiente. Esta praxis, que se torna mais elaborada e complexa ao longo de milênios, é o que chamamos de cultura.

A PARÁBOLA DO SAPO E DO LEVIATÃ

COMENTÁRIOS DO AUTOR


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Famosa é aquela história (ou será parábola?) do sapo e da panela sobre o fogo. Segundo dizem, se você colocar o animal na água ainda fria, ele não perceberá que a água está esquentando e morrerá quando o líquido ferver. Mas se você pegar o anfíbio e jogá-lo em água já quente, ele imediatamente saltará do recipiente. Verdade ou não - e existem aqueles que afirmam que experiências comprovam o relato - a história não quer nos ensinar nada a respeito das reações deste pobres animais submetidos a experiências tão dolorosas, mas nos dizer algo sobre nós mesmos.

Na forma de parábola, o relato se refere ao nosso relacionamento com o meio ambiente, principalmente nos últimos 50 anos, quando nossa atuação sobre a natureza se tornou cada vez mais destruidora. Se há 100 ou 150 anos abríamos estradas, geralmente de terra para a passagem dos raros automóveis ou de carroças, em nossos dias mudamos paisagens inteiras, para a construção de autoestradas de seis ou oito pistas, permitindo o deslocamento de milhões de veículos e pesados caminhões.

Para nós modernos, tudo parece muito natural. Grandes obras, imensas cidades, largas áreas de monocultura, enormes fábricas empregando milhares de operários; tudo grande para produzir e distribuir vastas quantidades de produtos a serem consumidas por milhões de pessoas. A imagem lembra o gigantesco Leviatã, descrito pelo filósofo Thomas Hobbes. O monstro, que segura um cetro e uma espada representa o Estado, que por ser formado por milhões de cidadãos tem a aparência de um homem, constituído por inúmeras imagens de pessoas.

É aí que entra a parábola do sapo, mas que nos tempos atuais se transformou em Leviatã. O colossal personagem - na realidade formado pelos interesses, apetites e ações de bilhões de criaturas humanas - não percebe que através de sua atuação está destruindo suas próprias possibilidades de sobrevivência a longo prazo. A exaustão dos recursos naturais e a destruição dos ecossistemas que os abrigam, colocarão em risco, cedo ou tarde, a sobrevivência dos estados na forma como os conhecemos hoje.

Secas, tornados, nevascas, chuvas torrenciais, serão fenômenos climáticos que se tornarão cada vez mais comuns. A exaustão dos solos, dos recursos hídricos; a diminuição das espécies de peixes comestíveis; a destruição das florestas temperadas e tropicais. Tudo isto já está acontecendo, basta prestar atenção aos noticiários ou escutar as palavras dos cientistas. Enquanto isso, a economia faz questão em ignorar o assunto. "É preciso que a economia funcione a um ritmo cada vez mais rápido, para que cada vez mais pessoas possam consumir. Mais consumo, mais empregos, mais riqueza."

Será? Para que possa aumentar a velocidade da produção e do consumo é preciso tornar os produtos obsoletos em menor tempo. E assim consumo, venda e produção ocorrem em cada vez menor tempo, aumentando o ritmo de uso dos recursos naturais necessários para a produção de mercadorias (muito anunciadas pela propaganda e cujo financiamento é facilitado). Onde isto vai parar ninguém sabe.

Ou sabe. Basta ver a maneira como estamos degradando o ambiente com nossas atividades econômicas. Somos o sapo que se transformou em Leviatã e que não se dá conta de que a cada dia, ano e década a água está mais quente. Ainda há tempo para saltar da panela. Mais um pouco, no entanto, e será tarde para a maior parte de nós.

DO UNIVERSO AO AMBIENTE

COMENTÁRIOS DO AUTOR


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A ciência que estuda o surgimento e a evolução do universo, a cosmologia, avançou muito nos últimos 30 anos. Se antes já haviam fortes indícios de que o universo tenha surgido através de uma imensa explosão - apelidada de "big bang" -, novas teorias dos anos 1980 consolidaram cada vez mais esta visão científica. A elaboração destas teorias é trabalho multidisciplinar, no qual conhecimentos das diversas áreas - física, química, astronomia - contribuem para formar uma visão coerente da evolução do universo em seus primeiros milhões de anos. Importante lembrar que tais especulações não são respostas definitivas sobre um tema tão complicado e que a cada ano surgem novas descobertas, que podem colocar em cheque todas as teses anteriormente aceitas.

Resumidamente, em relação ao universo, os cientistas em sua maioria aceitam que este surgiu há cerca de 13,7 bilhões de anos. A partir de um ponto minúsculo que concentrava toda a energia e matéria atualmente existentes, o universo explodiu e se expandiu rapidamente. Durante o processo de expansão a matéria foi esfriando, permitindo o aparecimento dos primeiros átomos e elementos químicos. O hidrogênio e o hélio - elementos mais abundantes no universo - se agregaram em grandes quantidades a altíssimas pressões e formaram as primeiras estrelas e galáxias. Posteriormente, com a explosão das estrelas, surgiram outros elementos, que contribuíram para o aparecimento dos planetas, satélites e outros corpos celestes sólidos. Em um planeta específico - pelo menos de acordo com o estado atual dos nossos conhecimentos - surgiu a vida como a conhecemos.

A teoria da evolução do universo também prevê que este terá um fim. De acordo com a hipótese mais recente, que leva em consideração a descoberta da energia e da matéria escura (sobre as quais não falaremos aqui), tudo indica que o universo se expandirá indefinidamente, até perder a energia e dissolver toda matéria. Os cientistas não estabelecem tempo para que isso ocorra; dezenas, centenas de bilhões de anos ou trilhões de anos, como conjecturam alguns. Um tempo inimaginável em padrões humanos, mas finito. O universo, segundo a ciência, terá um fim.

Voltemos agora à Terra, onde nós e todas as outras espécies de seres vivos nascemos e vivemos - a maioria já definitivamente extinta. A vida surgiu há cerca de 3,5 bilhões de anos; os primeiros rganismo pluricelulares apareceram há 600 milhões de anos; o homem há 200 mil. A civilização organizada surgiu há menos de 10 mil anos; a escrita há 6 mil e a ciência moderna tem pouco mais de 500 anos. Somos a única espécie viva na Terra e no universo (ao que saibamos) que tem a capacidade de alterar o ambiente em que vive e de prever razoavelmente o resultado destas ações.

Talvez, sob esta perspectiva mais ampla, a humanidade se dê conta da gravidade de nossas ações em relação ao meio ambiente e da importância em protegermos e mantermos os recursos naturais sob todas as formas: espécies vivas, ecossistemas, biomas e ambiente físico; incluindo mares, rios, montanhas, desertos, planícies e tudo mais.

A Terra e o universo não foram feitos para o homem, ao contrário. Este surgiu na história da vida, omo filho da Terra e do universo, junto com milhões de outras espécies. Temos o privilégio de olhar e interpretar o universo. Como já escreveu outro autor: "O homem é o universo olhando para si mesmo".

MEIO AMBIENTE: NATUREZA E CULTURA

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Há pelo menos vinte anos escutamos falar cada vez mais sobre meio ambiente. A proteção do meio ambiente, o aumento da poluição, a exaustão dos recursos naturais, o uso dos recursos hídricos, a conservação das florestas, o aquecimento global, a gestão dos resíduos urbanos. São todos temas que se incluem na questão ambiental, tão tratada pela mídia e cada vez mais importante nas decisões políticas e econômicas de nações e empresas, além de afetar diretamente a vida do cidadão comum.

Mas o que é o meio ambiente, do qual todos falam? São as florestas e os desertos, a atmosfera e os oceanos; são os rios que cortam as cidades e as lavouras, os animais selvagens e domésticos; é a área verde do nosso prédio e o canteiro central da avenida? Parece que é tudo isso e muito mais, incluindo todas as atividades que de alguma maneira causam efeito sobre este ambiente em que habita a nossa civilização. Aí podemos incluir a agricultura, a criação de gado e a pesca em alto mar; a produção de tudo o que consumimos; desde a extração das matérias primas até o transporte à loja ou nossa casa. A coisa vai tão longe que até o nosso lixo, o combustível e a fumaça dos nossos carros, a descarga de todos os banheiros e a água de chuveiros faz parte do meio ambiente. Incluso o nosso corpo, os alimentos que ingerimos, os milhares de tipos de bactérias que vivem em nosso intestino, tudo isto faz parte do meio ambiente. Meio ambiente é tudo. Em uma linguagem religiosa podemos dizer que meio ambiente é tudo aquilo que Deus colocou em existência nos primeiros seis dias da Criação.

No entanto, meio ambiente é tudo isso e ainda mais. Não são somente as coisas que existem na natureza, mas principalmente a relação entre elas. Sim, porque o mundo natural não é estático; todas as coisas exercem influência umas sobre as outras. O Sol evapora a água dos oceanos, que cai na forma de chuva e é absorvida pelo solo, que molhado libera os alimentos para as raízes das plantas, que para crescer incorporam CO², que causa o aquecimento da atmosfera, que aquecida causa os fenômenos climáticos, que, que, que... Uma complexa teia de causas e efeitos classificada pelos cientistas como sistemas complexos - um conjunto de coisas e relações complicadas e difíceis de serem estudadas.

Paradoxalmente, apesar de tecnologicamente avançados como nunca o fomos, nós humanos dependemos cada vez mais da natureza.

Mas não é somente a geleira do Ártico que se derrete com o aquecimento da atmosfera, a floresta amazônica que é dizimada pela agricultura e pecuária ou os tubarões que são mortos indiscriminadamente. Nossa civilização planetária desenvolveu-se tanto tecnologicamente e exerce cada vez mais pressão sobre a natureza, utilizando-se de seus recursos, que é impossível que alguma atividade humana não cause certo impacto sobre o ambiente, seja localmente ou globalmente. Isto é ainda mais verdade há pelo menos 200 anos, quando o processo de industrialização e urbanização que teve início na Europa, espalhou-se gradualmente por todo o mundo.

Paradoxalmente, apesar de tecnologicamente avançados como nunca o fomos, nós humanos dependemos cada vez mais da natureza. Criamos as ferramentas, a agricultura, e as leis; inventamos histórias para nós mesmos na religião, literatura, filosofia, e outras ciências. Mas dependemos cada vez mais dos recursos naturais - energia e matéria - para continuar mantendo a nossa própria natureza, elaborada ao longo dos últimos milhares de anos.

RESQUIAT IN PACEM

COMENTÁRIOS DO AUTOR


Morreu enquanto dormia. Acabara de receber o pagamento da segunda parcela de uma causa contra o governo de Pernambuco, que lhe rendera uma indenização de dois milhões de reais. Um rico morreu dormindo. A maneira como quase todos gostariam de terminar a vida.

Talvez esta tenha sido uma das poucas coisas que a vida tenha facilitado para Marcos Mariano da Silva, mecânico, 63 anos ao falecer há poucos dias. Seus problemas começaram em 1976, quando foi preso, acusado de homicídio. As circunstâncias não são muito claras, mas seis anos depois o verdadeiro culpado foi encontrado e Marcos foi solto. Assustador como acontece funcionar a justiça; descaso, lentidão, ineficiência e um inocente passa mais do que o período para a formação de um advogado na cadeia.

O destino às vezes parece escolher certas pessoas para usá-las como exemplo, mostrando como a vida é indiferente ao sofrimento humano. Marcos Mariano dirigia um caminhão por uma estrada três anos depois de sair da prisão, quando foi abordado por um comando policial. Um erro de comunicação entre os órgãos do governo, fez com que Marcos constasse como foragido nos documentos policiais. O pobre homem tentou explicar sua história, contou o que lhe tinha acontecido, mas não adiantou. Marcos Mariano foi preso novamente e lá permaneceu por mais treze anos, sabe-se lá em que condições. Esgotado, contraiu tuberculose e foi abandonado à própria sorte pela mulher e os onze filhos. Como se não bastassem tantos tombos na vida, durante uma rebelião ocorrida no presídio onde se encontrava, Marcos Mariano foi ferido nos olhos por uma bomba de gás lacrimogêneo, jogada pelo Batalhão de Choque. Ficou cego.

“Ele me dizia que vivia em um cárcere escuro e daria tudo para enxergar novamente”

A realização de um mutirão judiciário fez com que fosse reconhecida a enorme injustiça que estava acontecendo. Em 1998 Marcos Mariano foi solto e entrou com ação judicial contra o governo do Estado. A história comoveu de tal modo a opinião pública, que esta exerceu forte pressão para que o caso fosse resolvido. Daí em diante Marcos passou a receber uma pensão mensal de mil reais, até que conseguisse a primeira parcela da indenização milionária.

Nos últimos anos Marcos Mariano vivia com a esposa Lúcia, que conhecera na prisão durante uma tarde de visitas, quando Lúcia acompanhava a mulher de um companheiro de cela de Marcos. Haviam comprado uma casa e tocavam a vida em frente, agora de maneira mais tranqüila. Mas Marcos Mariano havia perdido a alegria de viver, a escuridão da cegueira o atormentava. “Ele me dizia que vivia em um cárcere escuro e daria tudo para enxergar novamente”, conta seu advogado, que defendendo e convivendo com o inocente havia se tornado seu amigo.

O enterro de Marcos Mariano da Silva, este trágico herói sobre o qual ninguém escreveu uma peça, ocorreu ontem, dia 23 de novembro de 2011, no Cemitério de Santo Amaro, em Recife. “Foi como se ele estivesse aguardando a corroboração de sua inocência para poder morrer em paz”, disse seu amigo advogado.

Descanse em paz, Marcos. Nós ainda ficamos um pouco, tentando remediar e dar um sentido ao absurdo que fizeram contigo.

(texto baseado em reportagem de Ângela Lacerda para o jornal O Estado de São Paulo, edição de 24/11/2011)

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